As roupas estavam espalhadas de forma desorganizada no chão da sala, o cheiro dela impregnava todas as paredes. A vida havia mudado completamente e ela nem sabia dizer exatamente quando.
Um dia ela havia sido a melhor da turma, um dia ela havia sido o tipo de garota que dizia "Eu te amo" só para aqueles que ela realmente amava, um dia...Agora não importava mais e o tempo parecia algo bem distante.
O caos se instalara sem aviso prévio, a dor já era demais pra suportar. E ela pensava em inglês que havia amado a vida em alguma parte, mas agora tudo no qual ela conseguia se concentrar era na fileira diária de medicamentos sobre a mesa, pílulas brancas, amarelas, redondas, ovais, grandes, pequenas, médias e o vício maldito no cigarro. Ela se olhava no espelho e encontrava o que passara sua vida toda desejando, uma garota magra, com cara de independente, mas ela se sentia mal dessa vez... Ela não queria precisar daquilo tudo, ela cravava com sua própria letra o seu fracasso na árvore do destino, numa tentativa desesperada de chamar atenção, de ser notada, porque ela mesma não conseguia se enxergar além daquele conceito que ela tinha de si mesma. Ele dizia que ela era inteligente e ela não acreditava, ele dizia que ela era doce e ela não acreditava... Foi parando de ver a vida como se sempre houvesse uma lição pra ser aprendida, talvez não fosse bem assim, afinal... Ela só queria poder fugir, se liberar desse corpo e dessa vida, sem precisar pedir ajuda.
Mas ela precisava de ajuda, de carinho, de cuidados... Talvez só isso fosse melhor do que gastar o pouco dinheiro que ela tinha em tratamentos que não funcionariam. Ela tentava dizer o que realmente achava, como realmente se sentia, mas as palavras sempre ficavam engasgadas no vácuo que era seu coração. Ela cederia aos medos pra diminuir o estrago. Ela tentaria, se tentar fosse permitido...
Mas você não compreenderia nada sobre essa menina. Se a encontrasse provavelmente diria que não existe absolutamente nada de errado com ela além da baixa estima. Você não entenderia, não mesmo. Porque pra isso é preciso que você vivenciasse uma vez ao menos o que é ter necessidade de um colo, de correr atrás do que estar perdido e de ver seus sonhos um a um desmoronarem no chão.
Poucos conhecem tamanha desesperança, tamanho desperdício. Mas ainda assim ela era forte, pois chegara até ali sem tentar se matar, sem tentar se destruir...
Não, os comprimidos e o cigarro não eram pra se destruir, era só pra destruir o medo e esticar um pouquinho a esperança de não permanecer naquele vazio. Queria que alguém desse um berro dizendo "PARA COM ESSA PORRA. EU QUERO TE SALVAR"...
No fim das contas ela só não queria morrer ali com seus 30 e poucos anos, sozinha, com as roupas espalhadas de forma desorganizada no chão da sala e as paredes impregnadas com o cheiro dela, sem nada e sem ninguém.
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