segunda-feira, 31 de maio de 2010

A donzela, o notívago e o tempo

Era uma noite quente, apesar do conjunto de nuvens cinzentas penduradas feito um móbile no céu. Ela estava sozinha em seu apartamento, o ar indomável se esvaindo através do reflexo no espelho, dando brecha para que aparecesse em seu lugar a mais comovente face de solidão. Não que ela não tivesse amigos ou família com quem ela pudesse contar, pelo contrário, era só que as feridas que ela carregava eram grandes e profundas, feridas na alma que só o tempo cura e, às vezes, nem ele.
Toda essa tristeza que ela sentia se intensificava. Se ela dissesse que estava infeliz à alguém isso demonstraria ingratidão e ela era muito grata por tudo e todos e isso a fazia sentir pior... Afinal, se ela tinha uma boa condição de vida, tanta gente no seu caminho capaz de fazê-la sorrir então porque ela não se sentia genuinamente feliz?
Essa sensação não era justificada pela ausência de um amor romântico, coisas inexplicáveis provocaram nela aquele turbilhão de emoções.
Ela não era frívola ou apática, não era anti-social, tampouco popular. Era sim uma donzela solitária tentando adaptar-se ao convívio social.
Tinha um bocado de sonhos, isso tinha. Uma porção de desejos resolutos, escondidos. Até porque era mulher e sendo, uma das primeiras lições que aprendera era a manter-se em resígnio.
Sonhar acordada era tudo que lhe restara.
Caminhou elegantemente até a janela e ficou olhando, como se assim fosse capaz de encontrar uma justificativa para seus questionamentos. Depois de alguns instantes sentou-se em frente ao espelho. Lembrou-se da última vez que ela havia contado à alguém como se sentia. "Você ainda é jovem, existe tempo pra que você descubra o que veio fazer aqui", ele replicava, "mas não se preocupe que eu estarei aqui".
Ela abriu os olhos. A muito ele havia partido. Era como se ela sempre houvesse sido uma mera expectadora de seu próprio destino.
O cansaço começou a se manifestar e ela resolveu ir dormir. Pela primeira vez, desde que se mudara para aquele apartamento seis meses atrás, deixou a janela aberta. Dela vinha uma brisa boa, refrescante... E por fim sonhou.
Caminhava numa viga de aço, muito acima do chão, usando um vestido branco de seda com um detalhe nas mangas rendadas num tom roxo florido. O vento batia em seus cabelos, que no sonhos estavam muito mais longos que os dela eram. Foi quando uma porta apareceu em frente. Um homem alto parou ao seu lado e perguntou se podia entrar. "Entre" ela respondeu. Venha comigo - disse o homem cujo rosto ela não conseguia ver - e ofereceu-lhe a mão. Ela foi caminhando na direção dele e a viga ficando cada vez mais estreita. A voz dele a chamava, ele tinha algo de hipnotizante, algo que ela temia e simultaneamente não conseguia escapar. Ele a abraçou pela cintura e ela levantou os pés do chão com os olhos fechados. Sentia que ele era um velho amigo. Quando abriu os olhos ainda com as mãos envolvidas no pescoço do homem sem rosto, viu casas tombando como se fossem feitas de papel lá embaixo e se soltou afastando-se dele. Era culpa dele, ela sentia que era. Foi afastando-se com terror transbordando dos olhos e agora conseguia ver os olhos dele, negros, perversos e tão concentrados nela. Ele esticou a mão e gritou desesperado. A viga se estreitou tanto que ela, recusando a ajuda dele, caiu.
Foi tudo muito rápido no momento seguinte. Ela abriu os olhos, o coração batendo acelerado, um raio caiu lá fora e deu pra ver claramente o rosto de alguém olhando o dela com curiosidade. Em átimos não havia nada ali.
Confiando na sua sanidade, ela levantou e foi acender a luz. Não tinha nada de valioso ali exceto talvez o computador, a televisão e o celular. Checou a casa mas não havia barulho algum além da chuva fina que caía lá fora.
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Foi um processo bem demorado pra ela ignorar a desconfiança de que alguém a observara, ainda a observava. Fechou os olhos e sentiu uma respiração gelada em seu rosto.
- Fique aí, imóvel. - Ela ordenou serena enquanto abria os olhos. - Quem é você? - Ela falou com um tom seco e assustada.
-Ora essa! - uma voz grave e aveludada respondeu-a se originando de algum lugar perto da cama. - Não foi você quem me convidou pra entrar, Sarah? - Ele disse enquanto se posicionava ao lado dela na cama, por cima do cobertor dela. Colocou as mãos na nuca e cruzou os pés. Se houvesse alguém ali para fotografar seria fácil dizer que ele era o dono do quarto e ela alguma namoradinha acanhada.
- Como eu convidaria alguém que eu nem conheço pra cá? Sai da minha casa ou eu chamo a polícia.
- Você não se perguntou como eu entrei? As portas estão trancadas. Eu não toquei em nada e mesmo se você chamar a polícia vão te chamar de louca. Eu posso desaparecer, se for de minha vontade. Mas perdoe-me a grosseria, Sarah... -disse ele tirando as mãos das nuca e esticando uma delas na direção da moça coberta e espantada - Me chamo Álvaro. E na realidade, se você não tivesse me convidado, eu jamais poderia entrar aqui.
- Entrar como, se as portas estão trancadas, como você mesmo disse?
- Pelos sonhos, pequena...
Eu existo além do tempo, eu vim dos seus sonhos. E se lá eu não consegui te salvar, aqui eu vou fazer de tudo pra conseguir.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Quer saber uma verdade, queridinha?

Eu estou pouco me lixando pra sua vida
E você vive querendo saber da minha.



coisa de gente pequenininha.

domingo, 23 de maio de 2010

abstract thoughts of an unusual mind

As folhas estão secando, o clima está mudando e os bichos estão morrendo.
A verdade é cruel, é irônica... O homem se preocupa tanto com ele mesmo que se sacrifica, que arruína o seu futuro.
Eu vejo casamentos ruindo, eu vejo brigas, eu vejo atitudes infantis.
Eu estou envelhecendo cedo demais, eu até tento ter paciência, mas parece muito pra suportar.
Me irrito com facilidade, choro com facilidade e vejo que o colapso começa de dentro pra fora. Eu emano caos. Sempre soube disso...
Mas o que me machuca mesmo é perceber que não sou só eu que me sinto dessa forma. Eu vejo isso nos seus olhos, eu vejo todo mundo tão assustado quanto eu.
Eu preciso que as pessoas sejam gentis ocasionalmente, eu preciso poder confiar pra variar e não me sentir patética por achar que as coisas podem se resolver. Eu preciso que seja prescindível exagerar, que eu acorde tendo algo pelo qual lutar, que eu não me abata e pense que eu simplesmente não consigo mais.
As folhas estão secando, o clima está mudando e os bichos estão morrendo.
A verdade é cruel, é irônica...
O mundo não está se acabando...
A humanidade em nós que está.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Da Magia à Sedução

"O homem que eu quero não existe.
E se ele não existe...


Eu nunca vou morrer por causa de um coração partido."

terça-feira, 18 de maio de 2010

Back to Paris

Diário de bordo #último/dia#
Nos vagões.

Olhando pela janela desse trem tudo parece se mover devagar.
As lembranças não doem tanto, mesmo que a cicatriz esteja lá.
Acho que em algum ponto do caminho eu parei de sentir porque seria difícil demais trilhar sempre o mesmo caminho.
Deve ter sido meu medo de terminar sozinho...

Ironicamente sozinho estou, forçado a me tolerar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Menage à trois

Sinto seu sangue quente e seu cheiro preso ao meu corpo. Eu sinto suas mãos pesadas e a vontade de permanecer. Eu sinto o seu olhar enquanto eu a vejo, enquanto ela está a se despir na sua frente. Eu sinto que somos só nós contra o mundo inteiro. E daí se é errado? Quem pode definir com tanta precisão? Eu gosto da sua voz e da maneira como você sorripnotiza. Eu gosto do seu chiado e do desenho do seu nariz. Eu amo a maneira como você ri, como me faz rir, como rimos... Eu gosto que você a possua, como possui o meu corpo. Como me faz transcender, como eu me sinto fora de mim...
É sublime isso.
É perfeito.

Eu, meu corpo...
Você, seu corpo...
E uma alma só.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Naked

Chegou na casa dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".
Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: "Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribue de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Lately I'm not feeling like myself


Luas. Eu sou uma lua, um pêndulo, eu oscilo, eu estou na sua mão. Eu sou o que você usa pra hipnotizar os outros. Eu não passo de uma ilusão.
Ando cansada de brigar, eu quero que isso acabe logo, eu quero mexer com você, te mover pra perto de mim, te fazer querer ficar. Eu quero que você me trate do jeito que eu mereço, quero que você pare de fazer de conta que eu não importo. Estamos grandes demais pra acreditar que nossas decisões não vão mudar tudo.

Me sinto te afastando, não vejo sentido nas coisas que eu costumava desejar e não existe tesoura pra aparar tudo o que cresceu longe da sua presença.

Eu me olho no espelho e não me reconheço, eu tenho minhas razões e as coisas que eu busquei foram as coisas erradas, talvez.
 
Eu não me sinto eu mesma ultimamente...
Porque eu não sinto mais você.
Porque eu não sinto mais.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ei,diot.

Eu gostava tanto de você que fingir que eu não sinto sua falta seria muita hipocrisia. Fingir que você não foi uma parte importante da minha vida, mesmo que eu tenha certeza de que eu não fui muita coisa na sua. Eu não sei em que tempo a gente começou a brigar. A gente costumava cantar juntos canções que ninguém mais gostava, eu lembro que você me ligou, eu lembro que eu te liguei e é assim toda vez. Lembro de chegar alterada no trabalho por ter brigado contigo. Lembro que eu disse que te amava e você disse que jamais poderia sentir o mesmo por mim. Eu lembro das coincidências, das risadas, de não prestar atenção nas aulas de informática sábado de manhã pra te responder no orkut. Eu lembro que você disse que não tinha tempo, mas que assim que tivesse queria me ver e me contar algo. Eu lembro que a gente combinou de se ver. Eu lembro que você me acusou e nem me explicou do que estava acusando, me pediu pra te deixar em paz, como se eu nunca tivesse passado de um problema na sua vida. Eu lembro que a gente se viu. Você lá sério e eu séria também. Fiquei tão nervosa que quase vomitei. Eu lembro de tanto, que não sei em que parte exatamente eu precisei te deixar de lado e seguir em frente. E eu segui em frente, mas sinto falta das nossas conversas, da tua voz, do teu sorriso, do que você representava pra mim.
Ele me ama, ele me ensinou a me amar, ele não se sente constrangido em falar comigo, ele sabe que eu sou complexa e em muitos aspectos ele te supera. Foi por isso que eu apaixonei por ele. Ele me beija, me toca, me sente, me conhece, como você jamais imaginou, você nem se permitiu tentar, talvez por que soubesse antes de mim que isso não ia dar certo...
Mas ele é amor e você era instinto. Era algo natural e que habitava em meus pensamentos, nas coisas que sempre foram só minhas e eu guardei lá. Pra te proteger de todo o resto. Eu enxuguei o excesso e deixei só sua essência, só as coisas boas...
Hoje eu sonhei com você. E você está voltando, eu acho... Sinto isso se revirando dentro de mim e um lado que quer muito te ver e o outro que acha melhor não. Você sabe de coisas demais agora, eu te escrevi aquela carta e se você leu, você sabe coisas demais. Deve me achar o pior dos seres e talvez pra você eu seja. Mas não importa mais a menos que você se importe. Acho difícil.
Mas saiba que vou levar sempre o melhor de você comigo e que eu sou muito grata por tudo o que você me fez aprender.
Te amarei sempre por isso, idiota.

May you

É essa época do ano, desse ano, que me faz sentir você se aproximando. Rastejando, implorando, sugando minhas energias como um verme instalado no meu corpo. É que tocou uma música que me lembrou você ontem e eu sonhei com você hoje. Amanhã não sei. Talvez eu tenha ódio, talvez eu me lembre o que em você fez com que eu me aproximasse. Todas aquelas coisas em comum e você nem se dava conta do que eu sentia. Eu achava que você me entendia. Você sempre foi meu apoio e eu queria que você voltasse pra eu te mostrar como eu estou bem e crescida agora. Como a vida foi maravilhosa e gentil comigo... Eu queria te ver, queria que você me visse e fosse aquela coisa "no feelings". Só fosse saudade de um tempo que passou e das coisas que nós aprendemos juntos e nada mais, nenhuma vontade de abraçar e de contar as coisas. Eu queria me ver imune ao seu sorriso hipnotizante de vampiro, queria que o meu sorriso te hipnotizasse dessa vez pra você sentir na pele a ferida. Eu queria olhar nos seus olhos e perceber que você não mudou nada, continua o mesmo idiota com a mente restrita. Eu queria isso. Mas isso seria arriscado demais, my ex-best friend...
No fundo eu tenho medo de que você ainda tenha um pedaço de mim. E todo mundo que eu conheço me diz que você sempre foi weird e é weird assumir...
No fundo eu tenho medo de você.
Você pode perceber?
May you realize it? May you?