Ele chegara. Depois de anos ele chegara, ela tinha certeza. E todos esses dias que outrora pareciam ter passado arrastando-se longe dele, agora pareciam apenas alguns segundos. Apenas alguns segundos até que eles conversassem. Olhou pro telefone e pensou em ligar pra ele, mas já era tarde pra se ligar para alguém.
"Eu só preciso conversar com ele e desistir ou ficar assim pra sempre"
No dia seguinte se encontraram.
Conversaram. Brigaram. Calaram. Olharam. Prometeram.
"Eu não posso abandonar você, eu preciso de você, mesmo que eu deteste isso" ela pronunciou olhando firmemente nos olhos castanho-amendoados dele.
"E eu detesto que você se sinta assim, sabe?" ele replicou partindo um pedacinho dela.
"Eu prometo, prometo que eu desisto se você me der uma única chance"
"Você está louca. Eu não posso, isso é loucura. Existem milhões de coisas que separam a gente, eu não gosto de você."
"Você é a principal coisa que separa a gente e olha, não me importarei em desistir, nem falarei mais com você contanto que eu possa passar uma semana contigo"
"Uma semana comigo?" ele olhou estranhando aquilo tudo.
"Sim. É tudo o que eu te peço. Uma semana inteira contigo. Pra cima e pra baixo. Não vou te obrigar a fazer nada, mas você só precisa de um semana pra se ver livre de mim para todo o sempre, não é melhor assim?"
"Cara, sério, você é louca. o.o"
"Isso é um sim, honey?"
"Ok. Whatever"
É, ela tinha tanta certeza quanto ele de que em uma semana ela jamais o convenceria de que talvez fosse possível amá-la. Ela não inventou planos mirabolantes, não fez armadilhas, nem planejou nada. Eles simplesmente conversaram nos dois primeiros dias. Riram e ela até chorou contando pra ele algumas coisas pertencentes só ao coração dela. Convidou-o para ir tomar um sorvete, de forma estabanada deixou-o cair em seu vestido e riu disso. Ela contou lembranças, falou de sonhos e de futuro. Ele acabou se abrindo mais e compartilhando algumas coisas. Ela ligou todos os dias pra desejar boa noite e dizer que o amava e ele ficara super sem jeito como de costume. No quinto dia ela chegou bem perto dele e ficou lá o encarando. Levou uma bolinha de sabão e ficou correndo atrás dela como uma criança. Sentou-se na calçada da casa dele e em silêncio colocou a mão sobre a cabeça dele de forma gentil para que ele encostasse em seu ombro.
"Faltam só mais dois dias, aguente firme". Ele não disse nada, só ficou olhando distante.
"Vamos ao shopping?"
"Fazer o quê no shopping?"
"Shopping" ela riu.
"Você quem sabe, pode ser. Na frente do cinema?"
"Sim, 15 horas, tá certo?"
"Ok"
Então eles se encontraram e ela falou que queria algo pra lembrar dele quando fosse embora.
"Toma esse dinheiro e compra uma coisa que te faça lembrar de mim, pra eu me lembrar de você sem tristeza"
"Sério isso, Amanda?"
"Séríssimo. Anda logo que eu tenho que ir pra casa às 18 hoje. Nos encontramos em frente ao cine, você tem uma hora."
Ele ficou olhando as coisas, totalmente perdido, depois de dar muitas voltas achou que brincos eram um presente infalível. Não tinha como ela não gostar de brincos, não é mesmo?
Ela não demorou nem trinta minutos pra escolher o presente dele e ele nem sabia que ela compraria algo.
Ela lembrou que ele gostava de verde, de música, de escrever. Preparou um kit com um monte de coisas que eram bem a cara dele. Comeu um sanduíche e o viu passando parecendo desorientado.
Foram até o local combinado.
"Aqui está seu presente"
"Hm. O que é?"
"Brincos"
"Brincos? o.o"
"É. Você pareceu desapontada."
"Não esperava, só isso. Mas aqui. Toma o seu"
"Táporra. Tudo o que eu gosto tá aqui"
"É. Essa é a diferença entre mim e ti"
"Qual? :/"
"Eu conheço você...
Ele a olhou meio confuso e triste e depois do silêncio ela perguntou:
"Você vai de metrô?"
"Não, vou de ônibus"
"Então tá. Até amanhã. Fique feliz. Amanhã tudo isso acaba"
"É, acaba."
"Te ligo antes de ir dormir"
"Ok"
Ela olhava os brincos na estante e chorara, chorara até dormir e dessa vez não ligou pra ele.
Ela acordou pensando que esse era o último dia, o dia em que eles finalmente se despediriam.
"Alô? Honey?"
"Oi."
"Tudo bem?"
"Ok e contigo?"
"Tô bem."
"Mesmo? Você não me ligou ontem. Acho que eu vacilei com o negócio dos brincos, não foi?"
"Você sempre vacila, já me acostumei"
"Táporra. Também não precisa falar assim."
"Whatever. Só queria que você me encontrasse aqui hoje, tem problema?"
"Não, não. Tô aí daqui a pouco"
"Ok"
Ele chegou.
"Tá animado hoje?"
"Não. Tô normal"
"Isso é bom?"
"Nem bom nem ruim. É normal"
"Ok. Pode ir."
"O quê?"
"É. Vai embora. Não é isso que você quer? Que eu suma e te deixe em paz?"
"Eu nunca disse isso"
"Você nunca precisou. 'Eu nunca vou gostar de você desse jeito' lembra? 'Pode ter sido você' simplesmente porque eu sentia algo, lembra?"
"Que que tem?"
"Você me disse isso... O.O Cara. Então pronto. Vai logo, VAI LOGO!"
"CARALHO A DECISÃO É MINHA E EU NÃO VOU, SUA LOUCA!"
"VAI LOGO." ela respirou fundo e com os olhos quase pendendo em lágrimas ela continuou "Você não tem razão nenhuma pra ficar mais. Eu não te quero mais sofrendo por não conseguir sentir nada por mim, então some, porra. Porque enquanto você permanecer, meu coração vai querer pertencer a ti e eu não vou saber ser outra coisa além de sua. Porque toda vez que você se sentir mal eu não vou poder cuidar de você, eu não vou poder provar que eu sou muito menos garota e mais mulher do que você pensa. Você é detestável, é ridículo. Todo mundo me diz que você é o tipo de cara que eu deveria evitar. Todo mundo me diz que eu sou estúpida de gostar de um garoto que não enxerga que eu tô inteira aqui na frente dele e eu tô cansada" nessa hora ela pegou ar, já que as lágrimas agora não se continham "Tô cansada de não poder ter você nem um pedaço, nem inteiro como eu quero, tô cansada de ter esperado esses anos todos. Amar você me cansa, me esgota, e ainda assim é tudo, tudo o que nesta maldita vida eu nasci pra fazer. Eu te amo e eu odeio amar você, quase tanto quanto eu me odeio por dizer tudo isso"
"CALA A BOCA. CALA ESSA PORRA DESSA BOCA, PORQUE EU NÃO AGUENTO MAIS. VOCÊ SE ACHA A RAINHA DE TUDO, A MERECEDORA DE UM AMOR QUE NÃO DEVIA EXISTIR, NÃO DEVIA EXISTIR NEM MAIOR NEM MENOR. VOCÊ ACHA QUE SABE DE TUDO, QUE ENTENDE COMO OS OUTROS SE SENTEM, MAS VOCÊ NÃO SABE DE NADA!" Ele a olhou e ela chorava escandalosamente "VOCÊ TEM IDEIA DO QUANTO EU FIQUEI MAL ONTEM? MAL POR VOCÊ NÃO TER ME LIGADO? FIQUEI PENSANDO UM MONTE DE MERDA. FIQUEI MESMO E FIQUEI PUTO CONTIGO. EU NÃO VOU DIZER QUE EU TE AMO, NEM QUE EU PRECISO DE VOCÊ, MAS ESTAR COM VOCÊ FOI A MELHOR PARTE DA MINHA SEMANA. PÁRA DE CHORAR! PÁRA PORQUE VOCÊ NEM ME DEU A CHANCE DE CONVERSAR CIVILIZADAMENTE. VOCÊ ME DEIXA PUTO, VOCÊ SEMPRE ME DEIXA PUTO E EU QUERIA MESMO QUE VOCÊ SUMISSE,QUERIA PORQUE EU JÁ NÃO QUERO MAIS."
"Como assim?"
"Como assim que eu posso viver sem você, eu só não quero mais que você vá embora"
"Eu não quero ser sua amiga, cara. Sério. Prefiro esquecer tudo de uma vez."
"Eu quero você"
"Cala a boca"
"Eu quero ficar com você"
"NÃO. Você não quer. Você só tá com pena de mim"
"Pena de você? Caralho! pena de você?"
"É"
"Tu acha que eu ficaria contigo por pena"
"Não"
"E então como diz uma besteira dessas?"
"Eu só não vejo como é possível você ter começado a gostar de mim"
"Eu gosto de quando você briga"
"Hm."
"E de como você é idiota às vezes"
"Right back at ya"
"E de como você fica horrenda quando chora"
"Poxa. Essa foi legal, hein?" u.u
"E de como você não sabe quando calar a boca"
"Eu sei quando" ele a interrompeu se aproximando do rosto dela "Não sabe não"
Seria perfeito se fosse assim.
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